Thursday, July 16, 2009

Saturday, July 4, 2009

Grandes feitos desprezados



Há alguns dias (não me pergunte quantos, porque eu não faço a mais pálida ideia) a Seleção Brasileira de Futebol emplacou mais um título: BICAMPEÃ DA COPA DAS CONFEDERAÇÕES. O jogo chato pra caramba emocionante o qual a seleção começou perdendo, já no primeiro tempo, por 2-0 e depois virou 2-3 poderia ter tido muito menos repercussão não fosse o nosso querido amigo Ashton Kutcher (vide @aplusk) a polemizar esta decisão no Twitter.

O episódio do #chupa jamais será esquecido por esta nação "twitteira". E até os não-adeptos do esporte mais popular do mundo estavam colaborando com a entrada da hashtag #chupa (expressão genuinamente brasileira) nos Trending Topics.

Ok, agora para tudo e chama a NASA: COMO ASSIM A SELEÇÃO BRASILEIRA DE FUTEBOL GANHOU UM TÍTULO E TODO MUNDO SÓ SE LEMBRA DO #CHUPA?

Sim, confesse você, que provavelmente vai ler este post: VOCÊ QUERIA MAIS ERA QUE A SELEÇÃO SE F...ERRASSE para ver se pelo menos assim mandavam o moleza do Dunga embora, não era?

Sim, confesse, que você estava mais preocupado em "twittar" #CHUPA mil vezes seguidas do que em assistir a premiação. Confesse que você desprezou totalmente o fato do Luís Fabiano ter marcado dois gols, salvado o emprego do Dunga e ser o artilheiro da Copa das Confederações 2009 - South Africa. Confesse que você ignorou COMPLETAMENTE o fato do Lúcio (ATÉ O LÚCIO) ter marcado e selado a vitória DE VIRADA do Brasil sobre a grande porcaria potência do futebol atual: os USA.

Mesmo com o Dunga, um técnico nota 2 numa escala de 3 a 20, a Seleção Brasileira de Futebol sagrou-se campeã surpresa e o que mudou na minha vida? Nada. O meu lado patriota se exaltou. Nem sequer o meu lado fanático por futebol se alterou.

E pensando neste grande e invulgar acontecimento, deparei-me comigo refletindo sobre os meus GRANDES FEITOS DESPREZADOS e dei-me conta de que eu me sentiria muito confortável na posição da Seleção Brasileira de Dunga, visto que este título foi o único feito desprezado de nossa grande e tradicional seleção canarinha. Já a loser dona deste blog, vulgarmente conhecida por mim como eu mesma, tem uma lista muito mais, digamos que, longa.

Por isto, sem mais delongas, segue um pequeno resumo com OS MEUS GRANDES FEITOS DESPREZADOS:

- Eu marquei 30 pontos para a minha Equipestinha, pontos estes determinantes para a nossa vitória, num jogo de desembaralhar frases. Em menos de 10 segundos com as palavras na mão desembaralhei a frase ("A Primavera é a estação das flores").

- A minha redação sobre o fim do mundo (que possivelmente aconteceria no dia 11 de Agosto de 1999) foi esolhida como a melhor da turma da tarde e foi publicada no jornal do colégio e andou um tempão no mural do pátio principal.

- Numa prova de Matemática e Língua Portuguesa realizada por todos os alunos da Rede Pitágoras (eu disse TODA A REDE PITÁGORAS), fiquei classificada em 49º lugar.

- O poema que eu escrevi sobre o Rio São Francisco foi escolhido para ser declamado na Festa da Família de 2003 e foi publicado no jornal A Semana.

- Fui a primeira menina a conseguir marcar uma cesta de 3 pontos DURANTE uma partida não-oficial amistosa de Basketball no colégio.

- Fui campeã de xadrez nos Jogos Interclasse de 2004.

- No meu "mandato" de presidente de turma, em 2005, a barraca "Boi No Toco" sagrou-se campeã na Festa Junina do Colégio Pirapora.

- Já marquei um set inteiro de
aces no Volleyball.

- Em um teste de I.Q. na internet, marquei um total de 140 pontos. Sabe o que isso significa? Que eu sou um gênio. #FAIL

- Venci o Stefan na disputa final do "Qual É A Música?" na gincana de Filosofia. A palavra era VOCÊ e a música que eu cantei foi "VOCÊ", da Elis Regina.

- No bolão da Copa do Mundo de 1998, eu fui a única que apostou 3-0 França. Apostei contra o Brasil? Yes, sir.

- Eu sei cantar o Hino Nacional Brasileiro, o Hino À Bandeira, Hino da Independência, o Hino de Minas Gerais, o Hino do Galo (e de mais um monte de times) e o Hino de Pirapora.

- Aprendi a ler, escrever COM LETRA CURSIVA e a contar ANTES de entrar para a escola ( i was 4).

- Fui a única capaz de resolver a seguinte charada: "2, 10, 12, 16, 17, 18, 19... Qual é o próximo número da sequência?" na minha classe.

- Único ser humano capaz de QUASE CAPOTAR um carro há 30km/h.

Continuo achando que uma pessoa tão prodigiosa como eu, está absolutamente desperdiçada neste mundo. NINGUÉM ME RECONHECE!

Por acaso, alguém lembra de algum destes feitos?

Wednesday, July 1, 2009

O sotaque das mineiras, por Felipe Peixoto Braga Netto


O sotaque das mineiras deveria ser ilegal, imoral ou engordar...
Afinal, se tudo que é bom tem um desses horríveis efeitos colaterais, como é que o falar, sensual e lindo das moças de Minas ficou de fora?
Porque, Deus, que sotaque!

Mineira devia nascer com tarja preta avisando: 'ouvi-la faz mal à saúde'. Se uma mineira, falando mansinho, me pedir para assinar um contrato doando tudo que tenho, sou capaz de perguntar: 'só isso?'. Assino, achando que ela me faz um favor...

Eu sou suspeitíssimo. Confesso: esse sotaque me desarma.
Certa vez quase propus casamento a uma menina que me ligou por engano, só pelo sotaque.

Os mineiros têm um ódio mortal das palavras completas. Preferem, sabe-se lá por que, abandoná-las no meio do caminho. Não dizem: pode parar, dizem: 'pó parar' Não dizem: onde eu estou?, dizem: 'onde queu tô.'

Os não-mineiros, ignorantes nas coisas de Minas, supõem, precipitada e levianamente, que os mineiros vivem - linguisticamente falando - apenas de uais, trens e sôs.

Digo-lhes que não.
Mineiro não fala que o sujeito é competente em tal ou qual atividade. Fala que ele é bom de serviço. Pouco importa que seja um juiz, um jogador de futebol ou um ator de filme pornô. Se der no couro - metaforicamente falando, claro - ele é bom de serviço.

Faz sentido...

Mineiras não usam o famosíssimo tudo bem. Sempre que duas mineiras se encontram, uma delas há de perguntar pra outra: 'cê tá boa?' Para mim, isso é pleonasmo. Perguntar para uma mineira se ela tá boa é desnecessário...

Há outras.
Vamos supor que você esteja tendo um caso com uma mulher casada.
Um amigo seu, se for mineiro, vai chegar e dizer: - Mexe com isso não, sô (leia-se: sai dessa, é fria, etc).
O verbo 'mexer', para os mineiros, tem os mais amplos significados.
Quer dizer, por exemplo, trabalhar.
Se lhe perguntarem com o que você mexe, não fique ofendido. Querem saber o seu ofício.

Os mineiros também não gostam do verbo conseguir. Aqui ninguém consegue nada. Você não dá conta. Sôcê (se você) acha que não vai chegar a tempo, você liga e diz: '- Aqui, não vou dar conta de chegar na hora, não, sô.'

Esse 'aqui' é outra delícia que só tem aqui. É antecedente obrigatório, sob pena de punição pública, de qualquer frase. É mais usada, no entanto, quando você quer falar e não estão lhe dando muita atenção: é uma forma de dizer 'olá, me escutem, por favor'.
É a última instância antes de jogar um pão de queijo na cabeça do interlocutor.

Mineiras não dizem 'apaixonado por'. Dizem, sabe-se lá por que, 'apaixonado com'.
Soa engraçado aos ouvidos forasteiros. Ouve-se a toda hora: 'Ah, eu apaixonei com ele... 'Ou: 'sou doida com ele' (ele, no caso, pode ser você, um carro, um cachorro).

Eu preciso avisar à língua portuguesa que gosto muito dela, mas prefiro, com todo respeito, a mineira. Nada pessoal. Aqui certas regras não entram. São barradas pelas montanhas.

Por exemplo: em Minas, se você quiser falar que precisa ir a um lugar, vai dizer: - 'Eu preciso de ir..'Onde os mineiros arrumaram esse 'de', aí no meio, é uma boa pergunta... Só não me perguntem! Mas que ele existe, existe. Asseguro que sim, com escritura lavrada em cartório.

No supermercado, o mineiro não faz muitas compras, ele compra um tanto de coisa... O supermercado não estará lotado, ele terá um tanto de gente. Se a fila do caixa não anda, é porque está agarrando lá na frente. Entendeu? Agarrar é agarrar, ora!

Se, saindo do supermercado, a mineirinha vir um mendigo e ficar com pena, suspirará: '- Ai, gente, que dó.'
É provável que a essa altura o leitor já esteja apaixonado pelas mineiras... Não vem caçar confusão pro meu lado!

Porque, devo dizer, mineiro não arruma briga, mineiro 'caça confusão'. Se você quiser dizer que tal sujeito é arruaceiro, é melhor falar, para se fazer entendido, que ele 'vive caçando confusão'.
Ah, e tem o 'Capaz...'
Se você propõe algo a uma mineira, ela diz: 'capaz' !!! Vocês já ouviram esse 'capaz'? É lindo. Quer dizer o quê? Sei lá, quer dizer 'ce acha que eu faço isso'!? com algumas toneladas de ironia..
Se você ameaçar casar com a Gisele Bundchen, ela dirá: 'ô dó dôcê'. Entendeu? Não? Deixa para lá.

É parecido com o 'nem...'. Já ouviu o 'nem...'?
Completo ele fica: '- Ah, nem...'
O que significa?
Significa, amigo leitor, que a mineira que o pronunciou não fará o que você propôs de jeito nenhum. Mas de jeito nenhum. Você diz: 'Meu amor, cê anima de comer um tropeiro no Mineirão?'. Resposta: 'nem...'
Ainda não entendeu? Uai, nem é nem.

Leitor, você é meio burrinho ou é impressão?
Preciso confessar algo: minha inclinação é para perdoar, com louvor, os deslizes vocabulares das mineiras. Aliás, deslizes nada. Só porque aqui a língua é outra, não quer dizer que a oficial esteja com a razão.

Se você, em conversa, falar: 'Ah, fui lá comprar umas coisas...'...
- Que' s coisa? - ela retrucará.
O plural dá um pulo. Sai das coisas e vai para o 'que'!
Ouvi de uma menina culta um 'pelas metade', no lugar de 'pela metade'.
E se você acusar injustamente uma mineira, ela, chorosa, confidenciará: - Ele pôs a culpa 'ni mim'.

A conjugação dos verbos tem lá seus mistérios, em Minas... Ontem, uma senhora docemente me consolou: 'preocupa não, bobo!'.
E meus ouvidos, já acostumados às ingênuas conjugações mineiras, nem se espantam. Talvez se espantassem se ouvissem um: 'não se preocupe', ou algo assim.
Fórmula mineira é sintética e diz tudo.

Até o tchau, em Minas, é personalizado. Ninguém diz tchau, pura e simplesmente. Aqui se diz: 'tchau pro cê', 'tchau pro cês'.
É útil deixar claro o destinatário do tchau...

Aqui vos fala uma mineira orgulhosíssima de ser mineira, mas que sempre teve um sotaque arranhado. E agora, morando em Portugal, mais arranhado do que nunca!